Ou como o Jovem Nerd e o Azaghal desenvolveram um modelo de negócios baseado em conteúdo (gratuito)

A história do negócio do Alexandre Otoni e do Deive Pazos é longa e interessantíssima, mas hoje queremos focar aqui em detalhe muito interessante do negócio: a maneira como criaram uma plataforma de entretenimento que ainda é capaz de produzir conteúdos de altíssima qualidade ao mesmo tempo em que gera lucro para o negócio.

A história do podcast no Brasil

Podcasts não são mídias recentes, eles começaram no início dos anos 2000, cunhados através da junção dos termos IPod e Broadcast. Basicamente, eram mídias sonoras (em arquivos mp3 ou wav.) feitas no formato de programas gravados.

A ideia pegou e ofereceu algo que outras mídias e plataformas não ofereciam, a capacidade de escolher quando ouvir. Rádios, por exemplo, são quase todas feitas ao vivo, 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Perder um programa era sinal de que dificilmente o ouviria novamente, a menos que se dispusessem a gravá-lo, e isso dependia quase sempre da relevância do entrevistado e do conteúdo.

Enquanto as mídias audiovisuais avançaram nesse sentido, programas gravados, reprises, etc., programas de rádio mantiveram até certo ponto sua autenticidade e um formato secular. Não que isso seja ruim, de maneira alguma, mas limitava em alguns aspectos.

O desenvolvimento dos podcasts, e a formulação da mídia como algo independente e original, ocorreu junto do desenvolvimento de hardware e software que permitia o download e armazenamento desses programas de maneira fácil em dispositivos compactos.

No Brasil, a mídia surge lentamente no início dos anos 2000, e encontra em um site de cultura nerd um nicho inexplorado – e gigantesco.

A história do podcast no Jovem Nerd

O podcast no site do Jovem Nerd é quase um guia do Oceano Azul, aquela visão de negócios de que é necessário ir sempre onde seus concorrentes não estão, segmentos de mercado que são lucrativos e inexplorados.

Já na primeira metade da primeira década de 2000 e o mercado de blogs estava saturado de conteúdo, fosse ele original ou replicador, simplesmente. No meio disso tudo, Alexandre Ottoni e Deive Pazos criavam narrativas em seu site usando elementos da cultura pop.

Com a dica de uma fã e o interesse pelo formato, acabaram adotando o podcast como mídia paralela ao blog.

Foi um sucesso, o novo formato atendia a uma demanda de público não imaginada. Tanto que em pouco tempo o Nerdcast acabou se tornando a mídia principal da dupla.

Hoje, o podcast tem uma média de plays por episódio por volta de 1,5 milhões. O recorde do site foi o lançamento do Nerdcast Especial de RPG Cyberpunk 1: com 9 milhões de downloads. Só para ter ideia, isso foi quase metade do público do último episódio de Game of Thrones.

A produção de conteúdo em áudio original não é novidade nos podcasts, mas a escala em que a marca produz difere dos principais produtores brasileiros.

A ampliação de mídias na marca Jovem Nerd

Em 28 de Outubro de 2010, ia ao ar no Youtube, outra plataforma de conteúdos nova, o primeiro NerdOffice.

O episódio Piloto do que viria a se tornar o NerdOffice hoje tem mais de 300 mil visualizações

A ideia era explorar as novas ferramentas da rede de vídeos para criar um programa audiovisual semanal, complementando os podcasts que já iam ao ar toda sexta-feira.

A primeira temporada teve 9 episódios, e possuía temas diversos. O público engajou, o Jovem Nerd foi um dos primeiros canais a ter um conteúdo estruturado e produzido em um formato quase televisivo: dois apresentadores, pauta semanal, etc. A segunda temporada já teve 44 episódios.

Passaram 9 anos e o canal do Youtube tem uma média de visualizações de 400 mil views por programa.

Além dos vídeos semanais, com pautas sobre o que acontece na cultura nerd mundial, eles têm, no momento de produção desse artigo: 1 programa na segunda-feira sobre jogos de videogame; 1 programa na terça-feira de outro colaborador, o sr. K; e 1 programa semanal na quarta (o NerdOffice tradicional).

Somados todos os inscritos dos canais, são mais de 4,7 milhões de pessoas.

Contando dados de acesso no site através de mobile, desktop e o aplicativo da marca, são mais de 40 milhões de pageviews por mês, com uma média de 3,6 milhões de usuários únicos/mês.

É um volume enorme, e mesmo estimativas conservadoras em conversão por anúncio e vendas na loja resultam em um grande número de vendas mensais.

O desenvolvimento do entretenimento relevante

Uma das primeiras decisões que nos chamaram a atenção no grupo Jovem Nerd foi a criação da Amazing Pixel, uma empresa de publicidade que integrava diferentes canais no Youtube para distribuir anúncios entre eles.

Essa era outra maneira de rentabilizar além da contagem de views para cada milhar, o RPM. Há tanta credibilidade na marca Jovem Nerd que já foram feitas campanhas para o Bradesco, Cup Noodles, Santander, Friboi, Balas Fini, e muitas outras.

A ligação com o público e a fidelidade desse em consumir o que é anunciado leva a um interesse maior de anunciantes, que estão sempre buscando maior retorno sobre investimento em suas campanhas.

Não foram considerados, ainda, as diversas parcerias com estúdios de cinema, visitas a sets de filmagens, entrevistas com atores e atrizes famosas, conversas com diretores, etc.

Mas o principal passo dado na direção do que aqui eu estou chamando de Entretenimento Relevante foi a criação do canal paralelo Nerdologia.

Como o Nerdologia integra o Entretenimento Relevante

O Nerdologia é um canal a parte do Jovem Nerd, com conteúdos apresentados por Átila Iamarino e Felipe Figueiredo, sobre ciência e história.

A abordagem dos temas, longe de ser academicista e complexa, busca uma aproximação lúdica, usando elementos da cultura pop como personagens de filmes e quadrinhos para explicar conceitos científicos mais abstratos.

Essa visão distinta sobre a educação, inclusive, foi um dos motivos que levaram Átila a apresentar no Ted Ex uma palestra sobre o futuro da educação (isso e o background de pesquisa, além das graduações e especializações dele).

O Nerdologia, mesmo criado em 2013 como um canal distinto, hoje tem mais inscritos do que o canal principal de Ottoni e Pazos. O número de views por episódio passa da média de 420 mil.

Essa abordagem dinâmica de conteúdos é o que torna o entretenimento do canal, o conteúdo veiculado, em algo relevante para o usuário.

Além do Nerdologia, são produzidos podcasts temáticos sobre o ensino de inglês e com especialistas em tecnologia e negócios, agregando valor ao público através de temas tangentes à temática nerd, com interesse inicial partindo sempre de Deive e Alottoni, como contamos já no Insights sobre podcasts.

Não apenas se propaga uma informação e eles são capazes de gerar receita, seja através do RPM, seja através de publicidade, seja convertendo na loja virtual deles, mas o conteúdo, independente do formato, gera valor para o público através de algo útil e não-descartável.

Hoje, além do Nerdologia, há ainda o Nerdbunker, vertente focada na produção de notícias e conteúdo jornalístico sobre filmes, séries, livros e jogos. O número de pageviews do Nerdbunker sozinho passa de 20 milhões por mês.

Longe de capitalizar apenas em cima de anunciantes, a criação da NerdStore foi uma maneira de retroalimentarem sua rede.

Como a NerdStore é a base do negócio do Jovem Nerd

Vou usar como exemplo a produção de uma série no NerdCast.

Em 18 de Março de 2011, Deive, Alexandre e um grupo de amigos decidiram se reunir para gravar um podcast falando sobre os principais clichês de RPG entre jogadores, sistemas, filmes, livros, etc. A ideia era gravar uma pequena esquete e dar continuidade na pauta.

Não foi o que aconteceu.

O grupo se divertiu tanto com a narrativa e decidiu continuá-la, o que acabou transformando o episódio no primeiro NerdCast Especial de RPG: O Bruxo, A Princesa e o Dragão.

O episódio foi um sucesso, e no final de 2011 foi gravada a segunda parte. Em dezembro de 2012, eles encerraram essa trilogia.

Não só essa saga contribuiu para um aumento de público, brand awareness e receita em anúncios (com patrocinadores no início de alguns episódios), também serviu para gerar produtos dentro da loja do Jovem Nerd, como camisas, copos, etc.

Além disso, foi produzida uma trilogia de livros com base no mundo desses episódios, levantando ainda mais receita para a marca.

Essa estratégia de auto referenciação serviu bem à dupla no início do negócio, quando os produtos licenciados eram caros ou fora do alcance deles. A loja vendia camisas com frases e momentos marcantes do programa, indicadas pelo público, o que os fidelizava ainda mais à marca.

Com esses podcasts, trouxeram mais público, desenvolveram mais produtos e criaram um material atemporal e rico. Estratégias de conteúdo são sempre medidas a médio e longo prazo, e quando bem feitas trazem resultados maiores do que as estimativas.

Basta lembrar: o Jovem Nerd possui episódios com mais de 9 milhões de downloads. Considerando as 50 séries de TV mais vistas em 2018, eles ficariam na frente de metade.

Usando o Entretenimento Relevante para vender mais

Dessa maneira, ao gerar conteúdo e vender produtos relacionados à marca, eles eram capazes de gerar caixa para que o negócio continuasse andando e pudessem investir mais em outras vertentes.

Hoje, como a marca se expandiu para diferentes canais e meios, é ainda mais fácil usar essa estratégia de referenciação, especialmente pelo fato de que a loja expandiu para diferentes áreas e produtos personalizados.

São inúmeros canais no Youtube com programas semanais, podcasts saindo em parceria com diferentes empresas (o curso de inglês Wise Up, o site de educação em negócios Meu Sucesso) além dos podcasts semanais, parcerias com outros produtores de conteúdo, etc.

O volume de público atingido é enorme, e tudo isso só é possível com a fidelização através de um conteúdo de qualidade, através de entretenimento que seja relevante para quem consome e compartilha.

Nos últimos 12 anos, inúmeros canais cresceram e depois desapareceram, sem serem capazes de monetizar de maneira tão ampla quanto a marca Jovem Nerd.

O Entretenimento Relevante é, ao meu ver, a habilidade de usar conteúdo em diferentes mídias (notícias, podcast, vídeos, entrevistas, etc.) para fidelizar e se relacionar com seus fãs reais.

Muito além dos 1000 propostos pelo artigo do Kevin Kelly, a marca Jovem Nerd foi capaz de nutrir uma base por tanto tempo que o público se tornou fiel ao nome e às direções tomadas.

Foram eleitos uma das 5 marcas mais influentes no Youtube e Blogs pela Ipsos em 2018, destacados entre os 100 brasileiros mais influentes pela revista Época e ficaram entre os 25 mais influentes na internet pela Galileu.

Atrair o público pode ser fácil, existem inúmeros gatilhos para isso, mas para fazê-lo ficar é necessário oferecer mais do que algo para consumo imediato, é necessário entregar um conteúdo tão bom que ele não vai querer mais ir embora, e vai torcer pela prosperidade do seu negócio.

Não se trata apenas de criar um bom conteúdo para atrair potenciais consumidores e converter em vendas, mas pensar no próprio conteúdo como um possível produto a longo prazo.

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