Se você resolveu dedicar tempo ao LinkedIn e ao Twitter nessa pandemia, mais até do que antes, já deve ter esbarrado com algumas expressões que o público dessas plataformas inventou para quem tira a maior onda com o vício em trabalho, especialmente nos setores de tecnologia e finanças. Estamos falando dos “Faria Limers”, grandes responsáveis (mas não os únicos) para fazer o LinkedIn virar “plataforma de fanfic”.

A expressão Faria Limer tem como objetivo “encaixotar” o perfil de quem trabalha na Avenida Brigadeiro Faria Lima, principal centro financeiro de São Paulo. O termo ilustra o engomadinho que se julga mestre em finanças e poderia até ser a estrela de Wall Street. 

Já o termo fanfic para LinkedIn representa uma crítica ao modelo de exposição da plataforma profissional. Nele, boa parte dos usuários pinta sua trajetória profissional como brilhante e sem defeitos, onde as dicas para o sucesso são focadas, basicamente, na motivação e no trabalho duro. Ou seja, uma peça de ficção. É claro que todo trabalho tem defeitos – e nem sempre a motivação e o trabalho duro são o suficiente para a vitória.

Onde queremos chegar com tudo isso? Simples: esse tipo de comportamento cibernético-social acabou dando vazão a uma série de paródias divertidas que contam “a verdade” sobre mercados tidos como inovadores e descontraídos. Uma das mais famosas surgiu no Twitter como @startupdareal e acabou virando livro. 

É nele que queremos chegar.

Uma obra que não vai te deixar rico

A promessa, inclusive, está no título: Esse livro não vai te deixar rico é um compilado de reflexões sobre a cultura de startups e as mentiras (ou, no mínimo, verdades não tão bonitas) por trás do escritório com piscina de bolinhas.

Não sabemos quem é o autor, ou autora, já que a obra é assinada pelo pseudônimo @startupdareal. Contudo, fechamos o livro como se ele fosse um bate papo entre amigos. Quem quer que o tenha escrito conta sua trajetória profissional – tanto aquela que geralmente se expõe na internet, com foco nas conquistas, quanto aquela que a gente não sai falando por aí, com os perrengues e tudo o que deu errado até, finalmente, dar certo.

Para mostrar autoridade no assunto, o escritor elenca seus privilégios e conta que não é apenas um “invejoso” que odeia fanfics profissionais ou “startup founders”. Dentre as muitas experiências que teve nessa seara, uma delas foi fazer um curso no exterior sobre empreendedorismo. Lá, ouviu um discurso um pouco diferente do que acredita ter se espalhado por aqui. 

Segundo ele, no Brasil é muito comum vermos influenciadores apelando para a inexorável vontade de empreender e ficar rico, enquanto que, na realidade, existiriam mais variáveis nessa equação:

– Fazer uma reserva financeira é importante para não passar fome enquanto seu negócio não decola;

– A vontade de empreender tem de estar intimamente ligada ao que você quer da vida, pois vai te exigir muito em contrapartida;

– Ao contrário do que muita gente prega, não existe segurança e estabilidade no empreendedorismo; ao contrário: empreender é entrar em uma piscina de riscos;

– Empreender não vai te deixar rico. 

É claro que existem exceções, mas elas são apenas isso: exceções. Com dados reais o autor mostra que, pelo menos no Brasil, os custos de uma nova empresa, entre fixos e variáveis, raramente vai dar a um profissional uma montanha de dinheiro. Muitas vezes, ele vai ganhar até menos do que ganhava quando era empregado em regime CLT. 

Justamente por isso é importante ver no empreendimento próprio um motivo forte para seguir com ele, o que muitos chamam de “propósito”. Afinal, além de não te deixar rico, ele potencialmente vai te causar sofrimento, dor de cabeça e adversidades.

Então é melhor não empreender? 

Não necessariamente – e essa é a beleza de Esse livro não vai te deixar rico. O autor não quer te convencer de que a vida nas startups não vale a pena, ou que ter carteira assinada é a melhor coisa que pode existir. Ele apenas quer demonstrar, com dados e fatos, que empreender não é para todo mundo – e não chega nem perto de ser fácil e mágico como alguns te farão acreditar.

Geralmente, quem acredita na força de vontade e no árduo trabalho como principais ignições para a carreira de sucesso é a pessoa que já chegou ao sucesso. Ela é a exceção da regra. Não que ter vontade e disposição de trabalhar sejam ruins; ao contrário: é isso que, no fim do dia, vai fazer sentido. O que Startup da Real ressalta é a periculosidade de só considerar esses dois fatores no discurso.

Primeiro, porque é ilusório – e você pode comprovar com sua própria experiência: quantas vezes você quis muito uma coisa, idealizou, trabalhou arduamente por ela e, de repente… não deu certo? Não foi por falta de motivação ou tentativa; talvez tenha sido por falta de capital inicial, o público não queria seu produto ou serviço, o mercado não foi validado, o dólar estava alto… existem inúmeros fatores adversos que influenciam diretamente na “vontade” de empreender.

E é isso que o Startup da Real fala: se fosse uma questão de pura e simples vontade, todo mundo estaria fazendo aquilo que mais ama – e acreditando na balela de que fazer o que se ama é igual a não trabalhar. Inclusive, já fique sabendo: mesmo as pessoas que amam o que fazem ralam muito – e talvez até mais do que a galera que não tem tanto amor assim.

Empreendendo com consciência – inclusive de classe

Lembra dos “Faria Limers”, de quem falamos no início do texto? A caricatura é muito utilizada para descrever aquele novo empreendedor que acredita piamente que correr atrás é o melhor jeito de começar a correr na frente. O problema é que, geralmente, existe um padrão para esse tipo de figura: de classe média ou alta, a pessoa provavelmente estudou em escola particular, teve aulas de inglês, viajou para o exterior e conseguiu se formar no ensino superior. Não raro, essa pessoa já tem uma reserva de emergência antes de pedir demissão do escritório para levar o notebook pra praia e trabalhar de lá.

Não há nada de errado em nenhuma dessas características – e seria excelente que todos compartilhassem delas. Contudo, a vida real não abraça esse ponto de partida, e os ditos “empreendedores de palco” escorregam justamente aí quando vão defender o conceito de meritocracia.

O Brasil é um país profundamente desigual. Enquanto alguns falam que empreender é só fazer por onde, outros ganham menos de um salário mínimo para sustentar uma casa lotada de gente. Existe o “empreendedor de sucesso” que acorda ao meio-dia e encerra o trabalho às três da tarde e a pessoa que acorda cinco da manhã, pega ônibus para fazer faxina, cada dia em uma casa diferente, volta para engolir a janta e deixar tudo pronto para os filhos no dia seguinte – e não ganha a mesma medalha de honra ao mérito. 

Por que? 

Porque, geralmente, a pessoa da faxina, por mais que empreenda, não é vista como case de sucesso, uma vez que sucesso é, para os “startupeiros”, executar pouco, ganhar muito, palestrar no TED, viajar de primeira classe (ou, no mínimo, executiva) e ter o celular de última geração e o melhor carro, embora sejam pagos a perder de vista.

Quem joga sujo com o discurso do empreender para se libertar não leva em consideração que muita gente não tem 50 reais dando sopa para comprar um pacote de balas para vender. Essa conversinha do “deixe de ser escravo da CLT” não só não funciona para todo mundo como, também, é falaciosa ao próprio empreendedor: muitos vivem apenas a “escravidão” de suas escolhas, já que não tem estabilidade e ganham bem menos do que quando tinham a carteira assinada.

Portanto, é injusto e maldoso colocar os louros do empreendedorismo no discurso da motivação. Não é “faz quem quer”; usualmente, é “faz quem pode”, e mais usualmente ainda, pode quem tem dinheiro (sobrando). Assim, levantar a bandeira do empreendedorismo como forma de realização profissional e sonhos pessoais é absolutamente válido quando o discurso leva em consideração os riscos inerentes à escolha, incluindo perder todas as economias.

E, no fim, você aprende que…

Pode até parecer mentira, mas quem lê Esse livro não vai te deixar rico termina a atividade com ainda mais consciência para começar um empreendimento. Com os dados, fatos e gráficos que a obra traz, quem realmente quer começar a própria empresa sente-se mais à vontade com a realidade nua e crua: pode dar certo, mas pode não dar. Cabe a cada um saber se está preparado para a experiência.

A grande mensagem do Startup da Real está, justamente, no cuidado com a linguagem: antes de apontar o dedo para o coleguinha que continua de carteira assinada, ou que diz que não pode se dar ao luxo de arriscar tudo para correr atrás do sonho, justamente porque tem muito a perder, é preciso entender que:

– Empreendedorismo não é pra todo mundo, e está tudo bem;

– Não podemos medir o mundo com nossa própria régua.

O empreendedor não é uma figura a ser ridicularizada: é preciso coragem para sê-lo. Contudo, para que a escolha não gere uma série de paródias divertidas, ele também precisa ter sensibilidade com o que sugere, para quem sugere e em qual realidade sugere. 

Da mesma forma, antes de desdenhar do trabalho em escritórios e contar lá no LinkedIn o quanto é muito mais produtivo trabalhar no pula-pula ou com pizzas e cervejas às sextas-feiras, é indispensável avaliar se tais empresas não estão se valendo do conceito de modernidade apenas para fazer sua equipe trabalhar mais horas – e não pagar por elas.

Tudo tem dois lados. E a questão que Esse livro não vai te deixar rico quer levantar é: por que tanta gente só fala do lado bom? Que, inclusive, não deve ser nem 10% de toda a rotina de trabalho?

O livro não serve para te deixar mais longe do empreendedorismo; ele te ajuda a ser mais cético quanto a gramas que parecem infinitamente mais verdes do que a sua. Quando desenvolvemos pensamento crítico em relação ao que os palcos nos falam – sejam eles físicos ou virtuais –, podemos ver que todos passam pelos mesmos perrengues, e pouquíssimos ficam realmente ricos. 

E, quer saber? Tá tudo bem.

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